Área de atuação

Parque Nacional de Brasília

EVOLUÇÃO TERMODINÂMICA DE ECOSSISTEMAS

Estudo de caso

Utilizando arcabouço heurístico sobre a evolução termodinâmica de ecossistemas e avaliando o PNB como parte de uma rede complexa de interações ecossistêmicas de evolvimento ininterrupto, onde as ações humanas dentro da rede - intensificadas sobremaneira com a construção da cidade de Brasília - alteram significativamente os fluxos de energia, matéria e informação, não existem dúvidas quanto a derivação termodinâmica em que todo o sistema atualmente se apresenta, ou seja, as forças que agem sobre o mesmo estarão balanceadas quando atingirem um novo “ponto ótimo de operação”, ou um novo atrator.

As transformações ambientais que hoje se processam eliminam qualquer possibilidade do Parque estar se direcionando, na linguagem ecológica, para um estágio sucessional anterior. Pode-se pensar a presença do índio de 10.000 até 300 anos atrás como que compondo, junto com as demais forças naturais um sistema balanceado, orbitando em torno de um atrator (Figura). Enquanto algumas manchas na paisagem se deslocam para um estágio sucessional prematuro (com o ateamento de fogo, por exemplo) outras seguem sua maturidade, o que configura o equilíbrio da paisagem em mosaico como um todo.

A presença dos bandeirantes, a 200 ou 300 anos atrás, com sua cultura caipira derivada, desvia o equilíbrio do ecossistema do Parque para um novo ponto ótimo de operação, num novo braço termodinâmico, passando por um ponto de bifurcação (Figura). Ou seja, a presença do caipira se fez numa densidade e forma que altera o padrão de organização do meio biótico natural, mas de maneira branda. O fogo nas pastagens naturais era ateado pelos caipiras com base em conhecimento indígena, que prescrevia a sustentabilidade de todo o sistema. O fogo trazia manchas de cerrado para estágios sucessionais anteriores, mais interessantes do ponto de vista da economia de subsistência. A presença maior de manchas em estágio prematuro, dentro do mosaico da paisagem, configurava um novo modo de ser de toda a paisagem. Os rebanhos de gado criados de maneira extensiva pelos caipiras e bandeirantes configuram-se em novos elementos estruturais do sistema, mas pelo fato de se encaixarem num grupo funcional já existente, ou seja, de mamíferos herbívoros, eles não intervém de maneira significativa no padrão de organização do ecossistema como um todo, ou seja, o sistema opera num estágio prematuro devido a uma intensificação relativa das queimadas e envolve no sentido de um atrator através de uma nova passagem (braço) termodinâmica não muito distante da original2 .

Seguindo essa linha de raciocínio, pode-se pensar, de um ponto de vista ecocêntrico, a construção de Brasília como uma catástrofe para o sistema ecológico de cerrado do Parque. Apesar das catástrofes ecológicas a muito serem estudadas, sendo a maioria reportada como fenômenos de ocorrência súbita —como propriamente sugere a palavra catástrofe—, a construção de Brasília e o comportamento do brasiliense, com sua cultura discriminatória para com os elementos naturais, dispara um processo de reorganização do meio natural bastante diferente do original. Do ponto de vista biocêntrico, uma calamidade se estabelece. A estrutura da paisagem é alterada, o que significa que o padrão de organização também se altera, que por sua vez influi na nova estrutura e assim por diante. O ecossistema deriva, num novo braço termodinâmico, no sentido de um atrator desconhecido ou indefinido, na dimensão de espaço de fase3 (Figura).

1. “Ponto ótimo de operação” ou atrator significa, na linguagem termodinâmica, um estado estável organizado de não-equilíbrio atingido por um sistema (deve ser salientado que equilíbrio no sentido termodinâmico é diferente do equilíbrio no sentido de estabilidade). Dentro desse arcabouço de discussão baseado na termodinâmica do nãoequilíbrio, a maturidade de um ecossistema eqüivale a um ponto ótimo de operação (atrator), com o clímax na sucessão ecológica representando um balanço temporário entre forças de organização e desorganização agindo no ecossistema. Maiores detalhes em KAY (1991, 1999), ou Abdala (2000). 

2. Esse tipo de análise corrobora a avaliação —refutada por muitos ambientalistas— de que as pastagens em áreas de cerrado quando bem manejadas podem atingir níveis interessantes de sustentabilidade ecológica e mesmo econômica, que acaba refletindo no avanço desse tipo de agroecossistema por todo o bioma.

3. O espaço de fase é o espaço formado por coordenadas onde se plotam variáveis estado do sistema. Variável estado é uma variável que descreve algum aspecto do sistema de interesse. Exemplo de variáveis estado de ecossistemas são: taxa de fotossíntese e respiração, produtividade líquida, biomassa, diversidade de espécies, taxa de herbivoria, entre outras (Kay, 1991).